Os Cafés Filosóficos, como quase todas as coisas bonitas, nasceram num jantar de amigos unidos pela mesma inquietação: a sensação de que muitas perguntas importantes do nosso tempo raramente encontram espaço e tempo para serem pensadas com calma.

Com elas, procuramos também levar a filosofia à rua, mostrando que não é apenas uma ciência dos livros, mas da vida vivida, que se dá a ver a nós, todos os dias.

Na faina mecanizada em que tantas vezes nos encontramos, talvez haja poucas coisas mais simples — e mais necessárias — do que um café à volta de uma mesa, entre perguntas, discordâncias, partilhas e novas perspectivas.

 

Juntem-se a nós.

Pensados como conversas à mesa, estes Cafés são encontros de reflexão, questionamento e partilha abertos à comunidade. Ancorados na filosofia, procuram abrir-se ao diálogo com a cultura, as artes e a política, onde o pensamento possa circular entre diferentes experiências e formas de saber. Os Cafés nasceram inseridos nas actividades do PRAXIS - Centro de Cultura, Filosofia e Política, da UBI - Universidade da Beira Interior.

 

Procuraremos reunir figuras da cena académica, cultural ou política portuguesa, de forma a poder conciliar rigor conceptual com uma atmosfera de escuta, curiosidade e informalidade crítica.

 

Os Cafés Filosóficos foram divididos em ciclos, cujo tema principal são as CARTOGRAFIAS.

O 1º Ciclo  decorre até Fevereiro de 2027 sob o tema da Indignação - CARTOGRAFIAS DA INDIGNAÇÃO.

Estamos a trabalhar para que seja um evento itinerante quer geográfica quer espacialmente.

 

DA INDIGNAÇÃO

A indignação é dos afetos mais ligados à experiência ética. Nasce quando reconhecemos uma injustiça — não apenas como um facto externo, mas como algo que nos diz respeito, que fere a ideia de mundo que consideramos aceitável.

 

Indignar-se é:

um gesto de lucidez, é recusar a indiferença perante aquilo que não deveria ser.

 

O nosso tempo parece marcado por uma estranha ambiguidade. Por um lado, tudo convoca à reação. Por outro, instala-se uma espécie de fadiga moral, uma erosão da capacidade de indignação. A exposição contínua à injustiça — mediada, repetida, acelerada — pode produzir não mais consciência, mas habituação.

 

Aquilo que deveria inquietar torna-se ruído.

Aquilo que deveria ferir torna-se paisagem.

 

Em Hannah Arendt encontramos este alerta decisivo: o maior perigo não é o mal em si, mas a sua banalização— a sua entrada silenciosa no quotidiano, onde deixa de ser interrogado. A ausência de indignação não é neutralidade; é antes um sintoma de que algo em nós deixou de responder.

Por isso, pensar a indignação hoje é também perguntar: o que ainda nos move? Onde traçamos o limite do aceitável? E, sobretudo, o que acontece quando deixamos de o traçar?

 

Num tempo em que a indiferença se disfarça de adaptação, recuperar a indignação pode ser um gesto filosófico fundamental: não como explosão momentânea, mas como atenção persistente ao que merece ser questionado. Porque talvez seja precisamente na capacidade de ainda nos indignarmos que começa a possibilidade de transformar o mundo.

E de voltarmos a nós e a sermos nós próprios.